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Trocar o certo pelo incerto

A missão da nossa antiga aluna Joana Gomes no Chade


Em Janeiro de 2017, a Joana Gomes, ex-aluna do São João de Brito, deixou a estabilidade da sua vida confortável em Lisboa, onde trabalhava no colégio como assistente social, e "trocou o certo pelo incerto". Já antes tinha trabalhado em favelas no Brasil e e em campos de refugiados em Espanha e na Sicília, mas agora a coisa foi mais radical. Partiu para uma missão de, pelo menos, um ano com o Serviço Jesuíta para os Refugiados (JRS) no Chade. Chade???? Onde fica esse país de que tão poucas vezes ouvimos falar? Fica no coração de África, rodeado de outros países cheios de problemas: Sudão, Líbia, Níger, Nigéria, Camarões e República Central Africana. Coordenadora do sistema de educação em dois campos de refugiados (Djabal e Goz-Amir) onde vivem cerca de 40.000 sudaneses, Joana sente que tudo o que deixou para trás era óptimo, mas não a fazia realmente feliz. Agora que vive sem eletricidade, a promover a escolarização numa cultura que ainda limita as escolhas das mulheres ao cuidado da casa e dos filhos, com responsabilidades e desafios que uma jovem de 29 anos normalmente não tem de enfrentar, sente que está realmente no lugar onde deve estar e que, dia a dia, realiza aquilo para que Deus a chamou e chama continuamente. Mas não é fácil nem simples. Como ela própria diz, "aprender a amar é um exercício difícil."

Quem quiser saber mais sobre as aventuras da Joana no Chade, siga a sua página de facebook https://www.facebook.com/trocarocertopeloincerto


E para aguçar o apetite, eis três recentes reflexões suas que, no facebook, estão acompanhadas de pequenos vídeos do seu quotidiano por terras africanas.

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O que é uma manhã normal?
Na verdade, o que é a normalidade?
Será que existe? Ou é uma criação nossa?
E se comparo a minha normalidade com a normalidade de outra pessoa e encontro coisas diferentes? Qual dos dois é mais normal?
Dei por mim a pensar em tudo isto, esta manhã, quando me deparei com a normalidade da minha vida no Chade:
Normal é partir às 6h30 para Koukou e não chegar, porque o jeep ficou bloqueado no meio da estrada.
Normal é o jeep que te vem socorrer ficar também ele bloqueado no meio da estrada.
Normal é teres de pôr os pés na lama, inventar engenhocas para socorrer o(s) jeep(s), e no final admitir que não há nada a fazer, e tudo o que te resta, é esperar por ajuda
Normal é ter de começar a formação de professores às 10h e não às 8h, como previsto.
E no meio de tanta (falta) de normalidade percebo que o mais seguro é andar de burro, pois não ficam bloqueados na lama!

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Ai Chade, como me fazes crescer!
Ao domingo vou ao mercado, e paro para tomar café.
Podia ser no Starbucks. Ou na Dona Augusta do outro lado da rua. Mas neste caso é na tenda da Mariam.
Uma construção tosca, perdida no meio das ruas do mercado (demorei 2 meses a conseguir encontrá-la sem antes me perder pelo caminho), onde no lugar de bancos temos um tronco de árvore ao comprido. Mas a simplicidade é compensada pelo sorriso alegre de Mariam, que nos convida sempre a entrar (assim como o da sua filha, que está sempre com ela).
O pedido é feito em árabe, pois Mariam não fala francês, mas hoje em dia já não preciso nem de pedir. Já sabe que bebo café sem açúcar! E depois um chá amarelo, igualmente sem açúcar.
E pedido feito é tempo de esperar e apreciar a magia de se fazer um café. Porque não há máquinas nem botões que fazem magia e que trazem cafés com espuma. Tudo é manual e toma o seu tempo.
Por isso cultiva-se a arte da espera. De apreciar a vida. De ver as pessoas passar. De ver o tempo passar, sem pressas. Sem medos. Sem culpas.
Ir ao café no Chade leva o seu tempo. Mas se há coisa que temos na vida é tempo!
Por isso vivo a vida com tempo e dou tempo ao tempo!
Ai Chade, como me fazes crescer!


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«Traga um filho, nós devolvemos-lho com a sabedoria de dois»
Preparo o regresso às aulas quase como em campanha eleitoral ou publicitária. Porque aqui a educação precisa de ser anunciada, difundida, defendia! Ando por aí a prometer que vai mudar vidas, que vai mudar o mundo!
E digo-o porque acredito de verdade nisso. Aqui no Chade, nos campos de refugiados onde trabalho, nunca foi tão claro para mim: dar a oportunidade de ler, escrever e pensar é a única maneira de permitir um futuro diferente a estas 15.000 crianças que passam anualmente pelas nossas escolas.
Tudo o resto o tempo leva, estraga-se com o sol, ganha pó, fica esquecido...
A minha avó me dizia quando eu era mais nova: "Que sorte a tua por andares na escola. Quem me dera a mim!" Foi preciso vir ao Chade para sentir este desabafo, e assim percebe-la de verdade.
Que todos procuremos os Chades da nossa vida, para percebermos com o coração, o que (já) nos passa no intelecto.

© Colégio de São João de Brito
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